Labirinto de Sonhos

Na escuridão

Era um dia chuvoso, daqueles dias onde tudo é cinza, chega a parecer um dia triste.

Chovia forte, de modo que quase não dava para ver nada dois metros à frente. Eu não tinha um guarda-chuva, sentia a força das gotas de chuva caindo, sentia como se fossem pedras sobre os meus ombros. Mais tarde entenderia a dor física do que se passava em minha alma. Me inclinei, mantendo meu rosto para o chão para pelo menos tentar ver por onde eu pisava. O barulho da chuva era ensurdecedor, caía com força, como se o próprio céu não conseguisse conter suas próprias lágrimas. Cada passo que eu dava, o vento tentava me empurrar para trás. Era um dia atípico.

No meio de todo o barulho e a falta de visão, senti uma presença por perto. Estendi uma das mãos e segui andando, sabia que estava prestes a encontrar alguma coisa. Minha mão encostou no que parecia ser uma pedra, grande. Como havia chego mais perto, percebi que era a entrada de algo que poderia ser uma caverna. Havia encontrado abrigo, poderia me proteger da tempestade. Ao adentrar um pouco mais, o barulho da chuva foi ficando mais fraco, e passei a ouvir o barulho de gotas caindo na água. E ouvi um choro. Piscando meus olhos na tentativa de enxergar na escuridão, vi a silhueta de alguém próximo a pequena poça de onde estava pingando. Era uma garota. Ela não percebeu minha aproximação e chorava desesperadamente. Estava com uma roupa toda escura, seus cabelos cobriam seu rosto, estava sentada abraçando seus joelhos. Vi ao seu redor alguns papéis, maioria deles escritos e alguns outros com alguns desenhos, como se fossem runas, e os desenhos possuíam um brilho fraco. Eu sentia a dor daquela garota, como uma facada em meu peito, uma dor latejante. Senti meus olhos lacrimejarem, meu coração apertado e uma súbita vontade de tirá-la dali. Ao mesmo momento que ela se mexeu e percebeu minha presença, as luzes dos papéis ao redor dela adquiriram um brilho mais forte. Me abaixei e peguei em sua mão, e seu olhar encontrou o meu. Senti em seu olhar uma imensa força, algo que a protegia, que apesar de toda aquela dor que sentia, a dor de peso sobre suas costas, mas ela ainda estava lá, não havia se entregado àquela dor. Lágrimas corriam por sua face, mas ela sorria com o olhar. Um olhar de compaixão, um olhar de força, um olhar corajoso.

– Não se preocupe comigo. – disse sorrindo.

– Como não me preocupar? Consigo sentir sua dor, como você consegue ainda assim sorrir?

Ela se levantou, recolheu os papéis à sua volta, empilhou todos em uma pedra que havia ali, apontou e disse: – Toque-os, vai entender.

Me aproximei da pilha, ela veio ao meu lado, e pousou sua mão sobre a minha, acima da pilha.

Ouvi de longe uma voz calma e serena, que falava em minha mente:

“Você se perdeu. Ou melhor, você pensa que se perdeu, porém você mesma encontrou seu caminho de volta. Olhe ao seu redor.”

Ao virar meu rosto vi pedaços da minha vida sendo reproduzidos, como pequenas telas repetindo momentos. Doía olhar aquilo. Representava minhas perdas, os momentos que chorei, os momentos que desejei não viver mais. Minhas maiores decepções, as humilhações que vivi, as dores. Não conseguia segurar as lágrimas, chorava feito criança.

“Agora olhe novamente”– ouvi novamente o calmo sussurro. Todas aquelas telas começaram a falhar e se apagar, fazendo com que o lugar ficasse totalmente escuro. Não conseguia ver um dedo à minha frente.

Até que comecei a sentir um calor em minhas mãos, que ainda estava sobre a pilha de papeis, e uma tímida luz começou a se formar dali. De minha mão saiu um feche de luz que ficou me rodeando. E foi aumentando de tamanho, cada vez mais e mais, preencheu todo o lugar onde eu estava e a luz ficou tão forte que precisei tapar meus olhos.

“Da escuridão pode surgir a luz, você é escuridão, mas você é sua própria luz”.

A luz, o calor, e a voz sumiram de repente. Voltei a ouvir o barulho da chuva lá fora, ainda forte caindo. Abri meus olhos rapidamente, estava sozinha. Porém segurava algo comigo. Segurava uma flor. A mais brilhante que eu já havia visto em toda a minha vida. Era amarela como o sol, suas pétalas pareciam girar para mim, e de modo que não sou capaz de explicar, eu me via. Via meu reflexo através da flor, e via aquela luz anterior pairando ao meu redor. A menina que chorava havia sumido, mas a senti dentro de mim. Ela era eu, e eu era ela. Minha escuridão e minha luz.

Calma Menina

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